Filatelia
para o Ano 2000
Luís Eugénio Ferreira
Publicado na "Filatelia Portuguesa". Ano XIV -Dezembro de 1998 - N.º 84
Talvez que 20 anos seja um período demasiado largo para reflectirmos sobre as mudanças que entretanto ocorreram. Mas nunca será tarde demais para nos debruçarmos sobre essas mudanças, procurando estabelecer as suas relações diacrónicas com a realidade envolvente. É isso que agora me proponho, tentando recuperar criticamente alguns escritos que publiquei então, sobre o que poderia ser uma filatelia para os anos 2000, quando já não será necessário um grande esforço para os atingirmos.
Detenhamo-nos então na relação seguinte, onde fixava o volume de selos emitidos por diferentes países europeus, por períodos de 40 anos:
| 1896 | 1936 | 1974 | Totais | |
| Grã-Bretanha | 104 | 104 | 542 | 750 |
| França | 105 | 228 | 1163 | 1956 |
| Portugal | 145 | 439 | 661 | 1245 |
| Bulgária | 64 | 225 | 1833 | 2122 |
| Roménia | 113 | 397 | 2370 | 2880 |
| Rússia | 113 | 541 | 3523 | 4118 |
Nota: Obviamente que referimos apenas os figurinos emitidos. Para calcular com exactidão o volume total de selos, teríamos que multiplicar cada emissão pelo número correspondente à tiragem respectiva, que varia como sabemos de país para país e de época para época. (Em Portugal as tiragens oscilam entre 300.000 e 5 milhões em média).
Poderemos ver no seguinte quadro, enormes variações, para as quais podemos encontrar, com alguma boa-vontade, respostas certas, por inferição, desde a tranquilidade conservadora da Grã-Bretanha até às enormes disparidades apresentadas pela Bulgária, Roménia e Rússia, países que instituíram o selo como veículo ideológico de grande importância.
Mas não é sobre isso que eu queria falar agora.
Continuemos então com as nossas estatísticas:
Numa relação de 16 países europeus, verificamos que o volume de edições produzidas em 88 anos (1896-1976) se cifra em 25.358 catalogadas. A manter esse ritmo de produção, só esses 16 países terão produzido no ano 2000 a totalidade de 68.000 emissões.
Considerando a média ponderada de aumento por país e por períodos de 40 anos, teremos:
| 1º período | 1836 | 120 selos |
| 2º período | 1896-1936 | 300 selos |
| 3º período | 1936-1976 | 1000 selos |
Números todavia bastante reduzidos em relação ao volume real de selos das edições mundiais, de que estes 16 países apenas constituem uma parcela diminuta.
Com efeito, em 1976, os selos produzidos em todo o mundo somavam cerca de 150.000, não incluindo aí o correio aéreo, selos de franquia, telégrafo, greve, etc..
Com estes dados e por extrapolação, concluía eu que a manter-se este ritmo, no ano 2010, isto é, quando se perfizessem mais 40 anos, a colecção mundial de selos, atingiria cerca de milhão e meio de espécies catalogadas.
Veremos à frente que efeitos se poderão deduzir de tal volume, naturalmente sob o ponto de vista do coleccionador, área que sobretudo nos ocupa neste momento.
Numa primeira análise e sem preocupação de sermos muito exactos, poderemos talvez inferir a ideia de que o aumento crescente de selos, acompanha de certo modo o aumento crescente da população mundial. É realmente bastante lógico pensar que o aumenta populacional multiplique as relações interpessoais, bem como as relações entre estados e povos num mundo cada vez mais globalizado.
Mas outros factores vieram porém interferir nos meus cálculos e daí a necessidade de os actualizar à luz das condições actuais, tomando em consideração que as próprias tiragens também aumentam concomitantemente.
A 1ª interferência por relação a 1976, diz respeito à constituição dos novos estados, sobretudo ocupando o continente africano, alcançando agora a sua independência em relação às potências colonizadoras, quebrando os antigos vínculos que a Conferência de Berlim estabelecera em fins do século passado. Por aí verificamos como essa independência estimulou a produção de selos de uma forma mais que proporcional relativamente às suas necessidades postais, mas tão só por evidente desejo de afirmação da sua nacionalidade.
| Gabão (ex-colônia francesa) | |
| 1886 - 1959 - como colónia | 146 selos |
| 1960 - 1974 - independente | 195 + 159 correio aéreo |
| Total de 354 selos em 14 anos. |
| Madagascar | |
| 1889 - 1957 - 68 anos como colónia | 234 selos |
| 1958 - 1975 - independente | 369 selos |
Acrescentaremos a mero título de exemplo:
| Angola | |
| 1876 - 1976 - 100 anos como colónia | 583 selos |
| 1976 - 1986 - 10 anos independente | 520 selos |
| Moçambique | |
| 1876 - 1976 - 100 anos como colónia | 563 selos |
| 1976 - 1986 - 10 anos independente | 407 selos |
A estes exemplos, virão juntar-se inesperados acontecimentos políticos, com profundas implicações na área filatélica, revertendo para a incontrolável produção de novos selos, espelho fiel desses acontecimentos conturbados da História europeia recente.
Refiro-me à decomposição política do vasto território ocupado pela ex-União Soviética, de onde viriam a sair 15 novas repúblicas, com uma vasta produção filatélica, suscitando um vasto enquadramento temático, sobretudo no domínio da História postal, que vai acompanhar por si mesmo essas movimentações a par e passo.
Referiremos mais que mesmo dentro do território actual da agora Federação Russa, muitas outras repúblicas têm sido levadas a emitir sucessivas séries, o que vem alterar profundamente a base lógica das minhas contas antigas. Com efeito, todos estes factos vieram adulterar de forma incontornável os resultados das minhas deduções, através das quais eu procurava definir os contornos da filatelia a partir do próximo século.
Acrescentarei agora outros factores, capazes de alterar em outro sentido, o ritmo previsto para uma produção filatélica consequente.
Ao conjunto desses factores chamei eu os "inimigos da filatelia", num artigo que terá levado alguns filatelistas e críticos, a incluir-me no rol desses mesmos inimigos, quando eu apenas pretendia alertar para os perigos que ameaçam de perto essa pequena harmonia em que a actividade filatélica parece desenrolar-se.
Pomos aqui de parte as franquias mecânicas, agora elas também absorvidas pela própria filatelia, e assim, consideradas como um inimigo negligenciável.
Aludiremos então ao seu segundo maior inimigo, traduzido pela transferência das competências historicamente cometidas a um serviço público nacional, para empresas ou agências privadas, obviamente incompetentes para emitirem selos de correio no sentido que lhes atribuímos e constituíam, como tenho frisado diversas vezes, um dos símbolos de afirmação de uma nacionalidade.
Este poderoso inimigo, já visível nas privatizações ocorridas na Holanda e na Alemanha, parecem constituir preocupação para Thomas Leavey, presidente da UPU, ao pronunciar-se por um sistema de concessão, isto é, empresas de correio propriedades do Estado, mas agora operadas por privados, de acordo com as leis do mercado.
Mas ficará salvaguardada a emissão de selos, com o seu estatuto histórico, tal como o concebemos?
Como terceiro inimigo, cuja alusão levantou alguma celeuma, referia o desenvolvimento dos meios electrónicos de comunicação (fax, e-mail, etc.) que o próprio presidente da UPU referiu como sendo concorrentes acrescidos dos correios, embora mostrando-se confiante sobre a continuidade do correio físico, mesmo admitindo grandes desvios para os "media" electrónicos, pelo menos em algumas categorias de correio, sobretudo entre empresas.
É óbvio que as considerações, de Thorrias; Leavey se inserem numa visão puramente comercial, não se referindo portanto especificamente a essa área particular que a filatelia constitui e é agora preocupação nossa.
Posta assim a questão nestes termos, poderemos talvez prever o que será uma filatelia para os anos 2000.
Admitiremos que mesmo suportando uma baixa considerável de objectos filatélicos, os coleccionadores não terão que se preocupar demasiado (a médio prazo), tendo em vista a herança activa de vários milhões de modelos remanescentes, com que poderão alimentar as suas temáticas ou complementar as suas histórias postais.
Por países notar-se-á talvez um certo abrandamento, sobretudo nos mais desenvolvidos, aliás desejável, como forma de combater as emissões especulativas que vem sendo timbre de um certa filatelia.
Na área exposicional, permanecerão os "stocks" fechados das grandes peças clássicas, sujeitas embora à sua transferência de posse, mas mantendo as colecções tradicionais no mesmo nível.
Em contrapartida, as temáticas revigorar-se-ão com o aproveitamento das peças produzidas ultimamente pelos novos emissores, como do mesmo modo aumentarão as colecções classificadas como "modernas" ou "mophilas", pese embora a relutância posta por alguns organizadores e responsáveis pelos caminhos da filatelia, como em tantos lados temos anotado com alguma veemência.
