CORREIO SOBRE OS LIMITES
Luis Eugénio Ferreira
Publicado na revista "A Filatelia Portuguesa" - Ano XVI - Junho 2000
É durante os grandes períodos de guerra, quando o fenómeno da desorganização subverte todos os princípios e desagrega todas as instituições no seio de uma comunidade, que o correio se opera inapelavelmente, sobre os limites. Os exemplos históricos deste facto são inúmeros. Nesses momentos cruciais, a circulação postal, ou, do nosso particular ponto de vista, a filatelia, vocacionada, como admitimos, para a relha e coleccionamento documental dos incidentes ocorridos durante esse período, forçosamente se exerce sobre os limites. Tomarei agora para ilustrar este tema, a ocorrência da guerra franco-prussiana de 1870/71, bem assim o período em que ocorreu a Comuna de Paris, com suas perturbantes consequências.
É nesses exactos momentos que a filatelia se enriquece, decorrendo a par com os acontecimentos históricos que ela de certo modo protagoniza e ilustra.
Consideraremos agora, como principais factores de incidência, o facto não sei exactamente se confirmado, de as guerras serem responsáveis pelo aumento, por vezes caótico do volume de correspondência, ou pelo menos e disso já não tenho quaisquer dúvidas, da sua premência, motivada por óbvias razões psico-emocionais. O volume de correio transportado sob condições anómalas por balões tripulados durante o cerco de Paris, representou, na sua totalidade, 2 ou 3 vezes o volume admissível durante o mesmo período em condições normais.
O segundo factor perturbador da normalidade, fixa-se no facto de a desorganização dos serviços postais atingir a sua essência, sobretudo quando se verifica uma invasão, com a consequente ocupação física de um território nacional.
Ao invasor, e porque o selo representa e simboliza sempre a essência de uma nacionalidade, restará ocupar-se ele próprio dos serviços postais, modificando ou anulando os elementos normais que consensualmente protagonizam .essa afirmação. Conhecemos da filatelia as sobrecargas, as sobretaxas, as reimpressões modificadas, etc. que testemunham essas circunstâncias históricas.
É desse modo que o invasor alemão em 1870 e demonstrando o seu alto grau de previsibilidade, acarretam consigo, a par do aparato da sua superorganização militar, os selos impressos que irão servir no território da Alsacia-Lorena, território que eles previam ocupar de forma definitiva. Irão aproveitar ainda do caos em que caiu o serviço postal francês, apesar dos bons esforços de Steenackers, ou da boa vontade dos agentes franceses. Gambetta, saído de Paris a bordo do balão “l’Armand Barbès” a 7 de outubro, emite ainda uma circular prescrevendo que o serviço postal deveria ser mantido a todo o custo, quer conservando os comboios que lhe estavam afectados, quer estabelecendo em comboios especiais, um serviço de ambulâncias. Mas a partir de Paris, de há muito que o caminho de ferro paralisara. A própria estação du Nord fora transformada num imenso estaleiro onde se fabricavam os balões tripulados, única forma de fazer sair de Paris alguma correspondência.
Era pois impossível cumprir os termos propostos por Gambetta. Como sabemos, os desvios do caminho de ferro eram longos e complicados, pois para fugir ao cerco alemão, era-se obrigado a seguir itinerários alternativos, por Poitiers, Niort, Saint-Lô, Cherburgo, etc.
A troca de correspondência nos territórios invadidos, revestia-se igualmente de grandes dificuldades, sendo-se obrigado a recorrer-se ao trânsito pela Bélgica ou pela Suíça.
Um funcionário prussiano administrava o correio nos departamentos ocupados, chegando ele próprio a emitir regulamentos que exigiam por exemplo, que todas as cartas entregues ou recebidas, o fossem sempre abertas. O correio, devido a essas dificuldades, acumulava-se de tal modo em determinados pontos, que foi decidido devolver grande parte das cartas aos seus expedidores, contrariando assim, todos os princípios legais e morais que deve em todos casos presidir a um serviço postal.
A verdade é que cada corpo alemão de artilharia ou cavalaria, era sempre acompanhado nas suas deslocações por um verdadeiro posto de correio ambulante, munido de todos os acessórios, compreendendo marcas de dia, carimbos e inclusivamente selos especiais em moeda francesa.
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Fig. 1 - Selos Alsácia-Lorena alemã. Postes e valor em cêntimos. |
A 6 de Setembro 1870, Berlim emite um documento ordenando à administração dos correios de Nancy a emissão de selos tipografados com a designação de Postes e o valor em Centimes. Mas a 26 de Outubro, era já o governador Geral da Alsácia-Lorena alemã que emitia os valores complementares de 5 e 25 cêntimos, como forma de permitir aos alemães o confisco do rendimento do correio francês a seu favor, o que, como se sabe, atingiu um valor considerável (fig. 1). Durante a ocupação uma direcção Superior do correio alemão foi entretanto organizada, continuando a empregar selos alemães em moeda francesa. A 13 de Fevereiro 1871, os representantes das administrações francesa e alemã, estabeleciam um acordo, cujo primeiro artigo dispunha que as cartas simples de Paris para os territórios franceses ocupados pelas tropas alemãs e vice-versa, .suportariam uma franquia de 40 cêntimos, percebendo cada uma das partes, 20 cêntimos, não dando nunca lugar a qualquer desconto pela troca de correspondência. Tal facto anormal na sua essência, ira ser traduzido filatelicamente pela existência de cartas contendo um selo francês de 20 C e um alemão de igual valor (fig. 2). Tal anormalidade terminaria em 16 de Setembro 1871, quando da libertação total dos territórios ocupados.
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| Fig. 2 - Franquia dupla. Marca de Metz. 2 selos alemães de 10 c. + selo francês Ceres. |
Em 23 de Janeiro de 1871, era estabelecido um armistício forçado, dado que nenhuma outra solução fora encontrada por Paris, após se terem esgotado todos os seus recursos e após os restos do exército francês terem sido obrigados a refugiar-se na Suíça, onde resto lhes foi prestada toda a hospitalidade, inclusivamente a isenção de franquia dada aos soldados, através de um carimbo designando: militares franceses internados na Suíça (fig. 3).
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Fig. 3 - Carta com marca Suiça e vinheta “Grátis” de militar francês |
A 26 de Fevereiro 1871, a França capitula, tendo sido forçada a entregar a Alsácia-Lorena e compelida ao pagamento inacreditável de 5 mil milhões de francos. São ainda visíveis as marcas da guerra na sua tradução filatélica pela forma como são obliteradas as correspondências. Essas marcas assumem particular importância, na medida em que indicam o local e a data da sua expedição.
A verdade é que as autoridades alemãs exigiam sempre a entrega de todas .as marcas obliterantes das estações que iam ocupando. Em contrapartida, os agentes franceses das cidades ainda abertas, destruíam sistematicamente todo o equipamento que não podiam pôr a salvo das mãos do inimigo. Os alemães, todavia, ao entrar nessas cidades, exigiam dos municípios a reinstalação dos postos de correio, onde não raro encontravam o material que fora escondido. É natural portanto encontrarmos obliterações normais, tal como Soissons, Amiens, etc. Todavia os alemães no sentido de suprir essas dificuldades, tinham o cuidado de prover rapidamente as estações com marcas de dia alemãs, como Strassburg, Elsass, etc. (fig. 4). Algumas dessas marcas assumiam o formato de uma ferradura com o nome da cidade em grandes caracteres.
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| Fig. 4 - Correspondência pelo balão “Victor Hugo”. Carta dirigida a um prisioneiro de guerra em Mogaburgo. Grande carimbo alemão: “Auswartiges AMT Des Nordentschen Bundes” Confederação da Alemanha do Norte. |
Proximamente referiremos uma outra situação histórica em que o correio funcionou nos limites, referindo a Comuna de Paris, que, como sabemos ocorreu durante o mesmo período 1871.
Tanto mais não precisaríamos de referir para provar como a filatelia é tão prima da Historia.
