História
Postal de Inteiros Postais
Luís Frazão
Publicado no "Jornal de Filatelia" - Ano X - Setembro de 1999 - Nº 56
Os inteiros postais, por muitos injustamente considerados como os parentes pobres das cartas (filatelia tradicional), apresentam ao mesmo título dos seus parentes mais ricos, amplo motivo para estudo de história postal. Os exemplos que neste pequeno artigo se ilustram, escolhendo dois temas que têm uma origem comum - impossibilidade de se encontrar o destinatário - são uma pequena contribuição para este tema. Vamos ilustrar cada um destes temas escolhendo para começar os inteiros da província de Angola.Angola
1 - Correio reexpedido. 1899.
Figura
1
O inteiro que se ilustra na figura 1, foi escrito por W. E. Fay, membro da missão protestante americana na região de Benguela, e que foi enviado" ao cuidado da Casa Holandesa" de Benguela, que se encarregou do seu lançamento no correio. Parece ser essa a conclusão a tirar do carimbo aposto no verso do inteiro e que se reproduz na figura 2.
Figura
2
O destinatário era o Reverendo Thwing, em Cantão, no império da China, para onde a carta devia seguir via Lisboa e USA. Como se tratava de um inteiro de 10 Réis, teve que se adicionar 20 réis, o que foi feito colando dois selos de 10 réis, um em cada canto, e dos quais só resta o do canto superior direito, sendo visíveis os vestígios da cola no canto superior esquerdo. Escrito a 25 de Agosto de 1899, foi o selo obliterado em Benguela em data ilegível e transitou por Lisboa em Outubro desse mesmo ano. A chegada a Nova Iorque deu-se a 4 de Novembro, a S. Francisco a 9 de Novembro e a Hong Kong a 16 de Dezembro. De Hong Kong foi enviada para Cantão, de onde foi expedida para Macau, onde o destinatário já não se encontrava, e onde foi
manuscrita o seu novo endereço - 16, Bridge Street, Jersey City, New Jersey, USA de novo passa por Hong Kong a 20 de Dezembro, para finalizar o seu percurso em Jersey a 20 de Janeiro de 1900, 5 meses após a sua partida do interior de Angola.
2.1 Correio caído em Refugo. 1887.
Tal como no caso anterior também se trata de uma missiva de um missionário americano, desta vez da missão do Dondo, situada nas margens do rio Quanza, a aproximadamente 200 quilómetros de Luanda. Não apresenta nenhuma marca da estação expedidora, nem do trânsito por Luanda (Figura 3).
Escrita na missão do Dondo a 6 de Março de 1887, somente a 14 de Julho chega a Lisboa, e a Nova Iorque a 30 desse mês, sendo o seu destino o estado de lowa, onde chegou a 3 de Outubro. Não tendo sido possível fazer a entrega a seu destinatário, foi anunciada - "Advertised" - e finalmente não tendo sido reclamada- Unciaimed - foi devolvida ao correio de origem, neste caso o correio de Luanda, onde lhe foi aplicada a marca Refugo/Dez.87/Portugal, de onde foi reclamada, pois de outro modo teria sido destruído.
Figura
3
2.2 Correio caído em Refugo. 1894.
O postal que se apresenta na figura 4, sendo nas suas linhas gerais igual ao anterior, tem no entanto algumas diferenças, pelo facto de ter sido enviado para Portugal, e que vamos passar a descrever.
Figura
4
Escrito em Luanda a 9 de Junho de 1894, foi marcado com o datador do Correio de Loanda do dia 1 O de Junho, e a avaliar pela indicação manuscrita do canto superior direito seguiu pelo "Zaire" para Lisboa, onde terá chegado a......... Uma vez em Lisboa, foi entregue ao carteiro para a distribuição domiciliária, tendo este inscrito no postal: "Não conheço na rua da prata 108 2-Q assinado Rego' Depois de ficar em depósito durante 3 meses, foi considerado o destinatário como "Desconhecido" e decidido que devia ser "Devolvido ao Remetente", tendo entrado no refugo do Correio de Loanda a 26 de Outubro desse ano.
Cabo Verde
3 Correio caído em refugo. 1898.
O inteiro de 20 réis de Cabo-Verde que a figura 5 ilustra, foi escrito da cidade da Praia, na Ilha de S. Tiago a 23 de Julho de 1898, tendo dado entrada no correio no dia seguinte.
Figura
5
Transitou por Lisboa em Agosto e chegou a Bruxelas a 1 O de Agosto, onde foi enviada para distribuição ao carteiro encarregue da "Rue Auguste Orts". Por este foi escrito, "Unconnu paute de numero, assinado le facteur seguido da sua rubrica".
A esta primeira tentativa seguiram-se outras, como o indicam os números 43, 44, inscritos no postal, feitos a partir da secção "Bruxelas/ Facteurs", onde o postal deu entrada no dia 12 de Agosto. Não se tendo encontrado o destinatário, e dado que o expedidor indicava explicitamente na sua missiva o seu regresso eminente à Bélgica, foi remetida para Refugo "Rebut" em Bruxelas, onde terminou o seu périplo.
4 Correio reexpedido. 1900.
A figura seguinte ilustra o verso de um postal que por si só justificaria as linhas que se escreveram, tantos são os motivos de interesse que apresenta.
Figura
6
Como se pode ver, por o expedidor não ter postais ilustrados, ilustra ele próprio a cidade do Mindelo na ilha de S. Vicente, datando-o de 3 e 16 de Agosto de 1900.
Figura
7
Passando agora para a frente do postal, constata-se que se trata de um inteiro de 20 réis ao qual foi adicionado um selo de 10 Réis. A obliterar o selo, assim como aplicada no verso encontra-se um carimbo em tinta azul muito ténue, com uma ancora encimada por uma coroa real, e circundado por três palavras escritas em caracteres cirilicos. A interpretação mais provável para esta marca é a de se tratar de uma marca privada de uma embarcação da marinha de guerra grega, em trânsito por Cabo Verde, escrita por um tripulante da mesma. Este postal seguiu viagem para o seu destino na Dinamarca, tendo chegado a Copenhague a 30 de Agosto. Na Dinamarca, foi reencaminhada para os Estados Unidos, para a cidade de Filadélfia, onde foi multada e aplicado um selo de 2 cents, a ser pago pelo destinatário, que a recebeu no dia 24 de Setembro.
5 Dupla Reexpedição. 1901.
Terminamos este apontamento com a apresentação de um inteiro postal expedido de Leipzig na Alemanha a 9 de Agosto de 1901, e dirigido ao Sr. Newton "Naturalista ao serviço do Governo Português em S. Vicente Cabo Verde". No dia 19 de Agosto, já a missiva tinha chegado a S. Vicente, de onde foi dirigida para a Ilha de S. Nicolau e daí para a Ilha Sal, na tentativa de se encontrar o seu destinatário, o que de facto aconteceu, pois que no verso este inscreve ter respondido.
Figura
8
E por hoje é tudo sobre a história postal dos inteiros.
