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Desculpado o Inglês... Os Carimbos "Blacked Out"
Cap. Lemos da Silveira
Publicado na "Filatelia Portuguesa". Ano XIV -Dezembro de 1998 - Nº 84
Nos primeiros dias de Setembro de 1939, logo após a sua entrada na Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido instaurou um poderoso (e indispensável) serviço de censura postal.
Nos primeiros seis meses, toda a correspondência expedida ou endereçada à Grã-Bretanha foi visada em Aintree, Liverpool.
A partir de 4 de Março de 1940 a censura civil passou a estar centralizada em Londres, com o propósito de anular a demora introduzida pela deslocação do material, ida-e-volta, a Liverpool.
Às unidades militares era rigorosamente proibido despachar as suas correspondências através do circuito normal dos Correios - elas deviam ser entregues exclusivamente nos Postos do Correio de Campanha (Field PostOffices), onde eram marcadas com carimbos omissos quanto ao lugar do serviço.
Até aqui, nada de novo.
Para chegar à casualidade que deu origem a este artigo é preciso olhar para o período crucial dos anos 1943-1944.
É a altura em que estão concentrados na Grã-Bretanha, em preparação, os enormes efectivos aliados - Commonwealth, Estados-Unidos, Canadá e contingentes oriundos dos países invadidos e ocupados pelos nazis - que, tendo como Comandante Supremo o General Eisenhower, irão desembarcar vitoriosamente nas praias da Normandia.
Numa data inesquecível: 6 de Junho de 1944 "D Day" ou "o dia mais longo". E é também a altura em que, com uma frequência inquietante, começam a aparecer correspondências de militares depositadas nos marcos e receptáculos de estações do Correio civil.
Face a esta conjuntura, que ameaçava perigosamente a segurança militar, e tinha largas implicações associadas, os censores receberam instruções para tomar ilegível, com tinta da China, o nome das estações expedidoras patente em todas as obliterações.
Os britânicos chamam-lhes "postmarks blacked out" (ou "bloted out", como acrescenta o Oxford).
Não vemos tradução justa, nem fácil.
Talvez "carimbos cobertos por tinta" - chamemos-lhes assim à falta de melhor.
Embora inédita, a história é simples e pode ser explicada com a investigação do testemunho documental que possuímos, e lhe serve de lastro: um lote de cartas dum militar belga (José Raskin) para a sua correspondente em Lisboa (Sofia Figueiredo).
Para começar, veja-se que todas estas missivas
*** estão correctamente franquiadas (5 dinheiros por onça, tarifa do correio aéreo para Portugal)
*** apresentam como expedidor
RASKIN, José (4156)
P. 0. BOX 218
LONDON, E. C. 1.
(endereço secreto do Exército Belga)
*** foram censuradas e fechadas com uma banda modelo PC 90: OPENED BY/ EXAMINER..... (número do censor).
A carta que exibimos na Fig. 1 escapou à operação, e a localização da estação expedidora, não tendo sido encoberta com tinta, está perfeitamente legível e identificada: "LONDON S. W. 1. 18 SEPT. 43".
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| Figura - 1 |
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| Figura - 2 |
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| Figura - 3 |
E assim, sem qualquer disfarce, chegou no dia 16 a Lisboa - onde formigavam os agentes alemães e as suas redes de asquerosos informadores. Correu um risco escusado.
Pelo contrário, as peças das Fig. 2 e 3, foram devidamente "tratadas" pelos respectivos censores, e a sua circulação não ofereceu qualquer perigo. As marcas de chegada a Lisboa são de 20 e 27 de Novembro de 1943 - e comprovam que, mesmo em períodos de grande instabilidade como este, havia os que, sem levar a sério as disposições militares e servindo-se do Correio civil, se davam ao luxo de dar notícias todas as semanas...
Como ponto de chegada, fica bem deixar registados os aspectos aerofilatélicos destas peças.
Consultado o "Report on the Progress of Civil Aviation 1939-1945" publicado pelo Ministério da Aviação Civil do Reino Unido, vê-se que este material foi transportado no Serviço N' 14 da BOAC (Reino Unido/Portugal), então com percurso BRISTOL/CHIVENOR / LISBOA.
Os voos eram realizados com aviões DC-3 DAKOTA fretados à KLM, com tripulações holandesas.
E a frequência de 5 voos por semana.
E aqui acaba esta história de "homens que escreviam de mais".
