Maximafilia - Um Coleccionismo Apaixonante

Eurico C. E. Lage Cardoso

Apenas a duas décadas do Século XXI; quando o avanço da tecnologia é imparável; quando já passaram vários anos sobre a data em que o homem pisou pela primeira vez a Lua, quando a pornografia impera principalmente nos países ditos mais civilizados; quando o vício da droga consome os corpos e corrói as almas; quando as nossas mentes e os nossos corações são constantemente agredidos por "'slogans'" materialistas que afectam a instituição mais sagrada que é a família; quando a juventude corrompida pela própria sociedade em que está inserida contesta toda e qualquer espécie de autoridade; quando o realismo brutal da vida quotidiana nos desanima e a violência, enfim, é a palavra de ordem no mundo conturbado em que vivemos, falar de paixão por qualquer coisa reveste-se, talvez, de um romantismo que muitos considerarão piegas, ultrapassado e, porque não, doentio. Mas a verdade é que, nada nem ninguém consegue destruir esse sentimento que felizmente e ainda é apanágio dos que, dotados de sensibilidade, bom gosto, e espírito tranquilo, embora não contestem os benefícios do progresso, se negam a pactuar com as violências das sociedades enfermas, "refugiando-se", no bom sentido do termo, num "hobby" que lhes dá prazer, satisfação e entusiasmo, que lhes proporciona, em suma, uma vida que podemos considerar agradável.

Quando apenas desejamos escrever algo sobre uma das mais belas especialidades em que a Filatelia (em sentido lato) se desdobra, estas considerações podem parecer inúteis mas são verdadeiras, serão desnecessárias mas julgamo-las oportunas. Talvez tenham sido inspiradas pela grande paixão e enorme interesse que, de há três anos a esta parte, dedico ao coleccionismo de postais-máximos. Paixão benéfica que aumenta dia a dia. Interesse cada vez maior que não diminui com o tempo.

Tudo já está dito sobre o que e a Maximafilia. Relembrá-lo é pura perda de tempo.

Porém, sendo, de facto difícil transmitir em poucas palavras tudo o que me foi proporcionado nesta nova fase da minha actividade filatélica que já leva cerca de vinte anos, pareceu-me apenas digno de realçar o que representam para mim os postais-máximos e o interesse que me despertou o seu coleccionismo.


1 - SOB O PONTO DE VISTA CULTURAL

O Presidente dos Estados Unidos da América Franklin D. Roosevelt (1882-1945) dizia que a colecção de selos alargava os nossos conhecimentos de inúmeras maneiras e enriquecia a nossa vida. Esta afirmação de tão ilustre colecciona dor aplica-se, por maioria de razão, ao coleccionismo de postais máximos já que, como veremos mais adiante, ao coleccionarmos "máximos" coleccionamos também selos.

O postal-máximo encerra verdadeira cultura. É um excita dor de instrução que estimula a compreensão. É, sem dúvida, um meio didáctico que pode muito bem ser utilizado para ministrar da maneira mais interessante noções dos vários ramos do saber humano. Tal como já sucede com o coleccionismo de selos há todo o interesse em fomentar e fazer a propaganda da Maximafilia junto da nossa juventude escolar. Para isso, há que realizar, cada vez com mais frequência, exposições e mostras de postais-máximos onde os jovens interessados deverão, durante as visitas que efectuarem a esses certames, interrogar os expositores para obterem os esclarecimentos que porventura desejem.

Mas nem só os jovens em idade escolar aproveitam da riqueza dos ensinamentos que a maximafilia proporciona. Com efeito, os adultos, quaisquer que sejam os estratos sociais a que pertençam, tiram proveito cultural deste coleccionismo. Se para os jovens a Maximafilia vista sob o prisma que referimos, tem uma finalidade didáctica, para os mais velhos desempenha mais um papel de contributo para a formação e desenvolvimento da cultura geral, embora este aspecto não seja, de modo algum, de desprezar, muito pelo contrário, em relação à juventude estudantil.

Confesso com toda a sinceridade que, ao longo destes três anos, muito aprendi com o trabalho de investigação a que meti ombros para realizar a minha colecção temática que denominei "Uma Viagem Turístico-Cultural por Portugal Continental e Insular", colecção essa que está constantemente a ser enriquecida com novas peças.

O que fiquei a conhecer sobre os nossos Monumentos (Igrejas, Pontes, Estátuas etc.) sobre quadros de celebridades existentes nos nossos Museus, sobre o nosso folclore, enfim, sobre os mais variados assuntos relacionados com o turismo e a cultura do nosso país, não é possível descrever em breves linhas. Se isto sucedeu quanto a um tema nacional que gama de conhecimentos se obtém numa temática de carácter universal?


2 - SOB O PONTO DE VISTA SOCIAL

O valor do coleccionismo de postais-máximos como estimulante de relações humanas é inegável. Os laços de profunda estima, de amizade sincera e duradoura que, por vezes a cedência de um postal-máximo proporciona entre coleccionadores são na verdade notáveis. E isto verifica-se tanto entre nacionais como estrangeiros. Consolidam-se verdadeiras amizades muitas vezes apenas por troca de correspondência enviando e recebendo postais-máximos.

Outro aspecto das relações humanas que a maximafilia proporciona é o contacto entre pessoas das mais variadas condições socio-profissionais, económicas, políticas, religiosas e culturais. A uni-los está sempre o mesmo interesse - A Maximafilia. Parafraseando Teresa Leitão de Barros o coleccionismo de postais-máximos é "democrático" por excelência sem ter, aliás, a menor cor política.

Como ocupação de tempos livres a função social da Maximafilia é enorme pois preenche as horas de ócio de forma benéfica e útil sob o ponto de vista psicológico.

Constitui, com efeito, uma distracção que, pensamos, não diminui com a idade.

Como meio terapêutico e como forma de estimular sentidos e qualidades humanas a Maximafilia tem, em nossa opinião, uma palavra a dizer.

Nos doentes, principalmente nos deficientes motores que não se podem deslocar com facilidade ou ainda nos atacados de enfermidades que, temporariamente, estão retidos no lei to, a maximafilia pode ser e é, com certeza, um óptimo passatempo podendo contrabalançar o egocentrismo provocado pelo mal de que sofrem anulando o sentimento de solidão e de isolamento.

A atenção, o método, o bom gosto, o amor do belo, a sensibilidade, a paciência, o mérito, o zelo, o asseio, o gosto pela investigação, a originalidade e a honestidade, tudo isto o coleccionismo de postais-máximos pode desenvolver num indivíduo .


3 - O POSTAL-MÁXIMO COMO MEIO DE PROPAGANDA E COMO ADJUVANTE DAS CORRENTES TURÍSTICAS

Embora não seja de desprezar o aspecto económico de que se revestem os postais máximos (as peças antigas e raras chegam a atingir no mercado milhares de escudos) não foi essa a razão que me levou a dedicar à Maximafilia.

Apenas faço alusão a este aspecto porque é um facto que não deve ser ignorado.

O valor material destas peças só me interessa na medida em que valoriza uma colecção e, portanto, ao serem expostas proporcionam-me uma dupla satisfação: por um lado, a raridade e a antiguidade duma peça, é sempre apreciada tornando-a desejada e, por outro lado, peças dessa natureza possibilitam em certames competitivos atribuição de prémios mais valiosos.

(Num certame em que há competição qual é o expositor que não deseja obter o melhor galardão para aquilo que expõe?).

Posto isto queremos referir, isso sim, mais em pormenor o interesse que o postal-máximo pode ter como veículo de propaganda e consequentemente como meio de estimular o turismo.

O postal-máximo pelas suas próprias características mostra de forma sugestiva não só as belezas naturais dum país através do motivo que o ilustra e do selo com o qual concorda, mas também o seu folclore, a sua história, os seus costumes, os seus monumentos, enfim, tudo o que representa o seu ambiente natural e o seu património cultural e artístico. Esta divulgação constitui, sem duvida, uma informação, um modo de dar a conhecer aos outros o que se possui de bom, de belo, de original. Faz-se, assim, propaganda do país; chama-se, deste modo, a atenção para ele, provocando o desejo de o visitar e conhecer, o que sob o ponto de vista económico (neste caso interessa-nos, sem dúvida) não é para desprezar de modo algum. Bem sabemos o que representa para nós, portugueses, em termos de divisas a vinda de estrangeiros à nossa Pátria.


4 - O POSTAL MÁXIMO COMO PEÇA DE RARA BELEZA

O postal tem a vantagem de, sendo sempre muito maior do que o selo com o qual concorda (concordância de motivo), dar a conhecer mais em pormenor o assunto que o ilustra.

Quando se consegue e tantas vezes isso sucede a realização de "Máximos" com postais coloridos, o conjunto, particularmente quando é exposto em certames da especialidade, atrai o interesse e estimula de tal modo a sensibilidade dos visitantes que, não raras vezes desejam adquirir esses postais olvidando que os seus proprietários jamais se desfazem de uma "peça"' que, por vezes, com tanto custo conseguiram.

Em beleza, colorido, em grandiosidade uma colecção de postais-máximos suplanta, sem duvida uma colecção de selos.

Tenhamos a coragem de dizer que em Maximafilia o selo é, sem dúvida, "ofuscado" pelo postal, embora saibamos que sem selos não há hipótese de realizar "máximos'".


5 - O POSTAL-MÁXIMO - UMA PEÇA QUE PODE SER REALIZADA PELOS PRÓPRIOS COLECCIONADORES

Só quem alguma vez se dedicou a esta especialidade de coleccionismo pode avaliar bem quão grande e a sensação de prazer, de felicidade e de satisfação, quando somos nós próprios a realizar um postal-máximo.

Adquirir um postal, por vezes com extrema dificuldade, colocar-lhe o selo com o mesmo motivo e obliterá-lo com um carimbo dos CTT ilustrado com idêntico motivo de modo a que as concordâncias de motivo, de tempo e de lugar, sejam "máximas'" obtendo assim o chamado triplo e o objectivo primor dial do realizador de Postais-Máximos. Não se contentando em conseguir apenas as "peças" realizadas por outros, revela tenacidade e perseverança e simultaneamente cultura geral e filatélica.


6 - O POSTAL-MÁXIMO CONTÊM EM SI, SIMULTANEAMENTE, 3 COLECÇÕES

Com efeito, sendo a Maximafilia constituída pelos três elementos (Filatelia (em sentido restrito) + Cartofilia + Marcofilia) resulta que ao coleccionarmos postais-máximos fazemos simultaneamente colecções de selos, postais ilustrados e carimbos.

Perante o exposto pergunto:

Serão necessárias mais palavras para justificar a paixão a o interesse que, estamos em crer, todos os maximafilistas tem palas suas colecções? Julgamos que não.

Estamos certos, finalmente, que quanto mais divulgação fizermos das nossas colecções através da realização dá certames, mais adeptos conseguiremos atrair para a nossa modalidade, com todas as consequências benéficas que dai resultam: para os mais velhos servirá de distracção para ocupar os tampos livres, ao mesmo tempo que terá objectivos culturais pelos conhecimentos que, forçosamente, lhes são transmitidos.

Para os mais jovens os benefícios são incalculáveis, porquanto além das vantagens atrás referidas afastá-los-á por certo, de inúmeros «atractivos» perigosos que as sociedades modernas lhes oferecem, a cada passo.

O mundo seria bem melhor se todos coleccionassem postais-máximos.



A024/#158
1997/12
Reproduzido de Boletim da Associação Portuguesa de Maximafilia nº 12, 4/1980.
Com as pequenas adaptações de A Maximafilia - Dos primórdios à Actualidade
Reproduzido com autorização do editor