O Selo Base

Eng. Armando Vieira

É costume já antigo e generalizado dividirem-se em dois grandes grupos todos os selos postos em circulação pelas Administrações Postais: as emissões base e as comemorativas. Estes dois tipos de emissões distinguem-se entre si, fundamentalmente, pelas causas que as determinam. Assim, se os Correios têm em vista, antes do mais, o abastecimento corrente do mercado com fórmulas de franquia, fazem-no com os chamados selos base. Porém, se pretendem sobretudo comemorar um dado acontecimento, ou chamar a atenção para determinado facto, emitem pontualmente as séries ditas comemorativas.

Mas, a estas causas determinantes das emissões comemorativas, junta-se uma outra, a dos interesses comerciais dos CTT que, muitas das vezes, se sobrepõem às primeiras. Por outras palavras, a mira do lucro que, no fim de contas, está por de trás de muitas emissões comemorativas, fazendo com que se procurem os eventos ou os motivos que justifiquem o ritmo, cada vez mais alucinante, da sua entrada em circulação.

Satisfazendo assim a objectivos diferentes, as emissões base e comemorativas, têm geralmente características também diferenciadas.

O selo comemorativo, feito numa única tiragem, de vida efémera, vai em grande parte directamente para o álbum do coleccionador sem ter cumprido a sua função de franquiador postal. E para que a filatelista se sinta atraído a comprá-lo, os Correios investem cada vez mais na qualidade de desenho, no papel, na impressão, e até nas próprias dimensões do selo. É o parente abastado e ocioso do selo base.

Com efeito, este último representa para os Correios um mal necessário em termos de custo, de exploração, que tem de ser minimizado. É ele que aparece na grande maioria das cartas estampilhadas que diariamente circulam pelos serviços postais. Por isso deve ser projectado para durar e ser impresso em elevadas e sucessivas tiragens. Cada fracção de centavo que se reduza ao seu preço de custo, pesa significativamente quando multiplicada pelos larguíssimos milhões de exemplares impressos.

Porém, apesar de despido de luxos e espremido até às últimas consequências, o infatigável selo base está, mesmo assim, longe de perder os seus encantos, oferecendo como nenhum outro ao coleccionador inveterado, vastíssimas possibilidades de pesquisa e estudo. Da sua longa permanência em circulação, das suas diferentes tiragens, e do seu método de fabrico, resultam inúmeras variantes de cor, papel, denteado e cunhos, de acidentes de impressão, e até uma maior probabilidade de sobre eles se encontrarem carimbos de interesse para os marcofilistas.

Os nossos "Ceres" ilustram bem o que acabamos de dizer. Neles se fizeram sentir, para além dos factores mencionados, um conjunto de circunstancias que influenciaram as diversas séries e respectivas tiragens, nomeadamente a inflação que obrigava a constante alterações taxas, a carência de matérias primas, em especial do papel, e as greves operárias que não só afectaram a impressão como deram origem em Março de 1920, ao uso de tão variadas e raras marcas obliterantes.

Mas não é só com os "Ceres" que se desenvolvem colecções especializadas. Mesmo sem falarmos nas nossas primeiras emissões de D. Maria, D. Pedro e D. Luís, também com os selos de D. Carlos e D. Manuel se têm conseguido reunir vastos estudos, que constituem verdadeiros modelos da arte de bem coleccionar. E não há qualquer razão para que às emissões mais modernas não seja dedicado idêntico interesse. Quanto mais para tarde se deixar o seu estudo, mais difícil e incompleto ele se tornará. O material que hoje abunda, com o decorrer dos anos irá rareando, imensos selos serão descolados dos sobrescritos impossibilitando a identificação de certos carimbos, ou a reconstituição da sequência das tonalidades de cores ao longo das diferentes tiragens, e assim muitas peças de fundamental importância se perderão. Por outro lado, os gastos financeiros necessários à reunião de tais colecções serão insignificantes, quando comparados com o valor que lhes é acrescentado pelas longas horas de paciente e aprofundado estudo, que lhes dedicam os seus autores.

E aqui cabe um breve comentário final à ideia que por vezes se estabelece no espírito de alguns filatelistas, de que umas boa colecção clássica só se consegue à custa de rios de dinheiro. Nada de mais errado, pois que até com os simples selos usados de 1 ESC. dos populares "Cavaleiros", é possível preencherem-se muitas folhas dos nossos álbuns, por forma a não desmerecerem de outras já consagradas emissões base de Portugal.

Porto, Outubro de 1984



A033/#168
1998/04
Publicado originariamente em ATENEU 84
Colocado em FP em Abril 98