Memórias Filatélicas

Luís Eugénio Ferreira

Andava pelos meus quinze anos quando me foi dado visitar pela primeira vez uma exposição filatélica.

Tinha-me então iniciado no coleccionismo e as ideias que criara sobre a filatelia eram demasiado simplistas, limitando-me eu a juntar um pouco ad hoc todos os selos que caíam ao meu alcance, ou que eu adquiria um pouco à medida dos exíguos saldos da mesada que me era atribuída.

Ocorre-me hoje, perfeitamente, o desânimo que essa primeira exposição provocou no meu espírito. Com efeito, senti-me um pouco como um mendigo que por um acaso fortuito tivesse sido introduzido num banquete milionário com a proibição de tocar nas iguarias que iam sendo servidas.

Foi assim que olhei os quadros resplandecentes, em que aquelas peças que eu conhecia do catálogo como altamente proibitivas, estavam expostas numa profusão que eu considerei acintosa.

Chegado a casa, deitei um olhar de desprezo absoluto às pequenas caixas onde eu, ao longo de alguns anos amontoara esses quadradinhos mágicos de papel, e aos pequenos álbuns que eu mesmo organizara, tão a custo e com tanto encantamento.

Conclui então que a filatelia era uma actividade reservada apenas a uma elite cujo acesso me estaria interdito por definição.

Teria mesmo desistido, não fora as palavras esclarecidas de um amigo, que partira do mesmo desencantamento que eu experimentava então, e me fez ver que a filatelia poderia possuir dimensões e caminhos ao alcance de todos os que queiram persistir, aceitando-a como uma escola de disciplina, de perseverança, de estudo sistemático, de paciência.

Fez-me ver mais que a filatelia poderia ser, para além de tudo, uma referência concreta dos vários momentos da nossa vida, pela ligação afectiva que necessariamente desenvolvemos a esta ou aquela peça, ou à história que marginalmente decorre das condições particulares da sua aquisição. É ainda um pretexto para o lançamento de uma infinita rede de comunicações interpessoais e uma fonte inesgotável de amizades. Penso hoje que tudo isso me compensou bem do desencanto que a primeira exposição filatélica me provocou, sentindo-me altamente recompensado do esforço que desenvolvi, na realização de uma obra feita por acumulação ao longo de uma vida, vencendo vicissitudes diversas ou coroando momentos que eu considerei como de glória.


Se algum conselho me fosse permitido dar aos jovens que hoje decidiram enveredar pela filatelia, tomando-a como uma actividade marginal ou melhor, complementar em relação aos seus planos de vida, diria para que se não deixem tomar pelo desânimo, face às exibições que a alta competição filatélica eventualmente provoque, fixando-a antes como a referência objectiva de um sonho que um dia se concretizará.


A037/#172
1998/08
Publicado originalmente em Jornal de Filatelia nº 26, Maio de 1994
Reproduzido com autorização de autor e editor