Os Precursores do Postal Máximo
António Cabral Rego
Coronel-Médico F.A.P.
Presidente da Associação Portuguesa de Maximafilia
O bilhete postal é relativamente recente, tendo os primeiros aparecido nos anos de 1860. Inicialmente não foram bem aceites, mas o facto do custo do seu envio ser menor que de uma carta, não haver necessidade de comprar papel e envelope, garantiram o seu sucesso. O desenvolvimento da técnica de impressão e o aparecimento da cor tornaram-no acessível e de aceitação a nível mundial.
Os postais publicitários, de saudações, de visitas e paisagens de um determinado local, de Natal, postais representando actrizes, animais, as realezas, chefes militares, cenas cómicas, reprodução de obras de grandes artistas, etc., etc., aumentaram rapidamente a sua difusão, as edições aumentaram, circulando aos milhões no início deste século.
Não era necessário, haver qualquer razão para enviar um bilhete postal a um amigo e na generalidade o receptor poderia enviar um em troca. O serem objectos alegres, decorativos e de fácil reunião em álbuns, tornaram-nos coleccionáveis e estes eram rapidamente preenchidos com bilhetes-postais de todo o mundo.
O seu uso e o seu coleccionismo aumentaram significativamente as edições e tornaram-no popular. A grande variedade de temas representados nos postais ilustrados fez aumentar a sua difusão. O auge da sua popularidade e difusão manteve-se até aos anos 30, e nem a 1.ª guerra mundial fez baixar a sua produção e circulação. A partir dos anos 30 podemos dizer que entrou em declínio acentuado e as suas produções baixaram para níveis mínimos, mercê de várias circunstancias. A partir dos anos 60 e até à actualidade surgiu novo interesse no coleccionismo de postais ilustrados, cartofilia ou deltiologia, e está outra vez a ser procurado como fonte histórica dos tempos passados.
Para melhor compreensão do fenômeno deverá consultar-se a obra de WILLOUGHBY (1).
Para circularem inicialmente o selo era colocado no lado da direcção (T.C.A. - timbre côté adresse). Começaram a aparecer postais ilustrados com o selo colado no lado da vista (T.C.V. timbre côté vue), tendo o cuidado de quem os assim selava, de escrever as iniciais T.C.V. no local onde deveria ter sido colocado o selo, para os funcionários dos correios não os multarem.
E porquê esta alteração e esta mudança do local de aposição do selo e correspondente obliteração? Os postais eram guardados e apresentados em álbuns com a face ilustrada visível, e a marca postal aposta no selo e no cartão postal era a melhor prova para demonstrar a sua autenticidade e lhe conferirem um valor legal. Se o bilhete postal fosse obliterado em T.C.A. não era rapidamente visível o carimbo dos correios, o que não acontecia se fosse obliterado em T.C.V.. A obliteração era vista por todas as pessoas, como documento legal, obliteração oficial CTT, e além da ilustração do postal, havia o selo e a marca postal que aumentavam tripla e significativamente o lado artístico e original desta interessante e instrutiva colecção, António dos Santos Furtado (2).
Diz o autor que 60% dos associados do Internacional Algarve Exchange Club (IAEC) preferem os T.C.V., sendo já o Eng. Furtado um partidário convencido, tendo originado vários artigos sobre a questão «Timbre Côté Vue» nas mais importantes revistas filocartistas, isto nos longínquos anos de 1918.
JOSEFINA REQUENA (3) grande coleccionadora espanhola, de Barcelona, define as regras a que devem obedecer os postais - T.C.V. :
«REQUISITOS DE LAS POSTALES T C. V - Para que tengam valor es preciso que el sello sea nuevo y debe ser pegado con arte sobre la postal, eligiendo el lado que menos tape el assunto de la misma. Quando una postal sea de superficie brillante, se raspará un poco paro que e/ sello no se suelte. Lo mas interesante, es la obliteración, pués es preciso que sea bien legible en el matasellos la población y la fecha. Todos las postales deben ser oblíterados de origen, o sea en la poblacion que la vista represente, pués una postale de Coimbra obliterado en Lisboa no tiene ningún valor.»
O Senhor Eng. António dos Santos Furtado disse-me, de viva voz, que os postais T.C.V. que apresentavam concordância entre o motivo do selo e a ilustração da carta postal eram classificados como «colecção especial». São estes T.C.V. - colecção especial - que são os primeiros postais-máximos, no tempo que ainda não se falava de tal. nem de maximafilia, tendo esta designação aparecido na década dos anos 30.
E, para ilustrar este artigo, nada melhor do que reproduzir um postal T.C.V. com ilustração da Catedral de S. Pierre em selo francês com obliteração POITIERS - GARE 23 horas? 30-1-11 e chegada a BRAGANÇA 1 FEV 11.
O referido postal é dirigido a E. de Moura Coutinho Bragança e tem escrito sic:
«Veuillez être assez aimable pour timbrer côté vue et pour ne m'envoyer que des cartes timbrées d’origine. Votre carte de Coimbra est fort belle pour malheur elle n'est pas timbrée de Coimbra.» Não podemos deixar de chamar à atenção para as datas das marcas postais de expedição de França e da chegada a Bragança. Nem hoje com o correio aéreo e azul...
(1) História do Bilhete Postal; Martin Willoughby; Edição Caminho, 1993.
(2) António dos Santos Furtado; Timbre côté vue - O Coleccionador - 2.º Ano - n.º 6 de 01 Outubro 1918.
(3 Josefina Requena; Secção Cartofila - O Coleccionador - 1.º Ano - n.º 1 de Agosto 1932
§ Nota do autor - trata-se de outra publicação, com o mesmo título.
A038/#174
1998/11
Publicado originalmente no Boletim de Divulgação da IBEROMAX'95 - I Exposição Luso-Espanhola de Maximafilia
Reproduzido com autorização de autor